a cadeira (version siv) nofizze!
A cadeira
Sexta feira à tarde, todos se encontram na casa de Lucas, para o acampamento marcado desde o mês anterior. A propriedade de seus pais terminava no grande rio Tajubiba, mas ali perto de sua nascente não era tão grande assim. O sol começava a baixar por trás das montanhas do oeste e quase todos estavam de mochilas prontas para a aventura de inverno que acontecia em todo começo de estação. Eu era a mais nova de todos e estava então com treze anos, seis meses e dois dias, mas como gostava de dizer, estava com 4925 dias de vida. Gostava daqueles cálculos, pois me davam à noção exata dos dias que estava enchendo os sacos dos meus parentes alheios às minhas vontades mais estranhas, segundo eles, claro! Éramos oito pessoas naquela aventura de dormir ao ar livre, em três barracas, éramos quase todos primos, só eu que era filha da cozinheira do dia e não morava na fazenda dos pais de Lucas, mamãe cozinhava todo último domingo do mês, eles eram gente muito boa, mas não aprovavam aquelas fugas que costumávamos fazer duas, três ou quatro vezes ao ano. Dona Amélia, mãe de Susi e de Marinho era nossa maior incentivadora, preparava os lanchinhos e enchia nossas mochilas de biscoitos e de macarrão instantâneo. E, muito às escondidas nos dava um litro de vinho fabricado por ela para tomarmos em volta da fogueira, comendo pinhões cozidos em panelas velhas penduradas na cabana na beira do rio, caroço de jaca, batata doce e aipim assados em nossos rituais de iniciação da puberdade. A mãe de Lucas, Selene e Fernanda, dona Zulmira que era irmã de dona Amélia, não concordava com aqueles acampamentos, achava muito perigoso e fazia um milhão de recomendações para não entrarmos no rio à noite, não ficar com a cabeça descoberta diante da fogueira, usar o banheiro da cabana e não fazer necessidades no mato por causa dos bichos. Era engraçado como sempre repetia: “por tudo que é mais sagrado a vocês, só cheguem perto do rio se for para pescar”. Mesmo assim, só podia ser de dia, claro que ninguém era louco bastante para se jogar à noite naquela água gelada, tinha o vinho para dar coragem e que dona Zulmira nem sonhava. E o vinho nem dava tanta coragem assim e cá entre nós, sempre imaginei que dona Amélia colocava mais suco de uva em nossa garrafa para diminuir o efeito daquela sensação bacana que o vinho dá principalmente na beira da fogueira ouvindo Josafa, que eu carinhosamente chamava de Josa e que era o mais velho entre nós e o dono do violão cúmplice dos segredos aquecidos pelas brasas e pelo vinho misturado de sua tia, além de ser o responsável por quase todos os nossos passeios, dentro ou fora da fazenda. Eu o adorava, ele era muito engraçado, contava histórias que dizia ter ouvido de seus avôs em sonhos. Aventuras de cunho burlesco em que o bem se sobrepunha ao mal, nem sempre havia bem ou mal envolvidos em seus fatos, apenas um meio termo, que se perdia pela senda animada ou sombria de sua narrativa insólita. Era muitíssima atraente, apesar de algumas vezes eu não entender e ter vergonha de perguntar quando todos pareciam ter entendido! Minha mãe vivia me chamando a atenção por ficar desligada em momentos inoportunos e não entender quando as coisas me eram ditas. Mas a opinião de mamãe não contava, ela era a confidente da família em seu consultório de psicologia que dividia com a cunhada fonoaudióloga e fofoqueira, minha tia Maria Antonia, que conhecia todos os podres da família e de muitos agregados. Josa era gago quando pequeno e sempre foi acompanhado de perto, e não era raro encontrá-lo no consultório uma vez por mês para conversar com minha mãe e minha tia, nem sempre nessa ordem! E quando, por coincidência eu estava lá, ficava a imaginar se ele contava aquelas histórias mirabolante para Maria Antonia já que era na sala dela que passava a maior parte de sua consulta. Tentava ouvir minha mãe e sua amiga discutirem suas avaliações, mas quase sempre era muito técnico e eu ficava sem entender direito sobre o que falavam. E eram essas conversas que não saiam da minha cabeça quando contava suas histórias no entorno do braseiro, com ora solos, ora batida de violão numa melodia super agradável como trilha sonora e que eu dançava com qualquer um que se habilitasse, sob aquele céu com um montão estrelas brilhantes! Estavam servindo um vinho quente com maçã, cravo e gengibre, aquilo...
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